segunda-feira, 5 de abril de 2010

Crônica: Não me chamaram pra rezar - memórias de uma Semana Santa profana.


por Claudimar Silva


Em quatro dias de um feriado religioso, ninguém me convidou para rezar. Ou pelo menos fazer uma pequena prece sequer. Porém, intimações para consumir bebidas alcoólicas e “curtir” por aí agitaram meu telefone. Não que eu seja um religioso praticante ou fanático, nem discordo do direito de lazer que todos têm. Porém, percebo que a reflexão sobre a importância da vida, que em um feriado religioso, no mínino deveria ser incitado, está em desuso, fora de moda e muitos desconhecem inclusive o significado real da “Semana Santa”.

A cultura religiosa em Icapuí se resume a pequenos encontros em Igrejas católicas, freqüentadas sempre pelos mesmos fiéis, e nas igrejas evangélicas, que primam pela consagração dos ritos religiosos que fundamentam suas ideologias. São de fato, os mantenedores das tradições e assumem caráter de resistentes guerreiros da grande massa que desvirtua o espírito emblemático da “paixão de Cristo”.

O que vemos, principalmente na turma jovem, é uma “carnavalização” da semana santa, onde os grupos se reúnem para “festejar” tudo, menos a simbologia da passagem de Jesus pelo mundo. É preocupante saber que os jovens de nossa cidade não têm outro objetivo de vida que não seja o da diversão exacerbada. A total falta de compreensão do que seja um momento de reflexão, transforma nossos jovens em seres alienados e consumidores vorazes de substâncias entorpecentes, que para alguns, pode ser uma forma de fugir de “mesmice”, mas que na realidade não tem propósito algum. Embebedam-se e se drogam simplesmente pelo prazer, pela “lombra”, pela necessidade de se mostrar ao mundo como um ser superior, de se achar o tal.

Vi nesse feriado, que esses jovens não têm perspectiva nenhuma, e resumem suas vidas a momentos ínfimos de prazer imediato, sem pensar nas conseqüências futuras.

Obviamente, que nessa faixa etária, seria incoerente que os mesmos passassem o feriado inteiro em estado de meditação. A questão não é essa. O que me incomoda é perceber que o poder devastador da bebida e da droga é infinitamente maior que o poder da espiritualidade, e que a instituição FAMÍLIA parece não mais existir, se tornou obsoleta e perdeu o controle sobre os destinos sobre a geração que será nosso futuro.

O poder público, em sua parcela de culpa, parece não se preocupar com isso. A omissão se torna conivência a partir do instante em que não se estabelece programas de recuperação da cultura familiar e religiosa, algo tão presente em minha formação, e de muitos outros colegas que compartilham de minha singela opinião.

A família, na outra parcela de culpa, além de conivente, é também impulsionadora do flagelo familiar que presenciamos hoje em dia. Os pais, não todos claro, tendem a querer se livrar do difícil fardo de educar um filho, dentro das normas de condutas estabelecidas pelas sociedades modernas, e jogam seus filhos ao “Deus dará”, com isso perdem o direito de exigir de seus filhos uma postura diferente da que vemos hoje. Os jovens se tornam “independentes” cada vez mais cedo, dotados de uma “maturidade imatura”, sem uma educação sólida, sem perspectiva ou objetivos, juntam-se a tantos outras que “pensam” da mesma forma e vivem a vida como se fossem eternos, ou que essa eternidade aparentemente não fosse importante.

Não rezei, tomei vinho, me diverti, porém refleti!

5 comentários:

Janice disse...

Olá Klaud!

Adoro seus textos (vc sabe disso) e achei muito boa a refexão sobre a FAMÍLIA e religião que você coloca.
Porém tenho 02 observações:
1. Como um dos divulgadores da programação da paróquia no blog, se fosse de seu interesse você teria participado. E se o problema fosse falta de companhia, você tem amigos bem próximos que participaram ativamente da programação da Igreja. E fica o questionamento se tivesse lhe convidado vc teria ido?
2. A doutrina evangélica não cultua a semana santa como os católicos, portanto eles não mantem a tradição da data.

Um abraço e Feliz Páscoa!

Janice disse...

Ah! Além de convidar para a diversão, a partir de hoje não esquecerei de convidar para a missão, rsss.

Claudi Mar disse...

Obgado Janice...

Sobre a observação 1: De fato, não é necessário ser convidado para se rezar. Considero a reza um momento intimo de cada ser humano, e tlvz meu modo de rezar não seja igual aos demais. A reza pode se apresentar de diversas formas, e o que vejo na maioria das vezes, são desejos do "rezador" que busca alcançar alguma graça. Há, portanto, por trás da reza, um interesse. Rezar significa muitas vezes pedir a Deus algo que não somos capazes de alcançar sozinhos.

Essa ideia de rezar não me desperta interesse justamente pq creio que o ato físico de rezar não tem valor nenhum (pelo menos pra mim). Se fosse assim, o povo que mais reza no mundo, os nordestinos, teriam todas as suas graças alcançadas, porém, ironicamente, é o povo que mais sofre. Seria essa a vintade de Deus? não sei, e nem entrarei no mérito.

Minha reza particular se resume a agradecer e direcionar meus pensamentos a uma força maior que nos move (que alguns chamam de Deus), e não me dirigir a Deus como um "poço dos desejos". Acho que fazer o bem, agir com bondade, tem mais valor que qualquer reza. Mas respeito e admiro os que realmente rezam com fé.

Sobre observação 2: VocÊ está certa, os evangélicos não tem a tradição da semana santa, porém, consultei um evangélico e segundo ele, as passagens do nascimento, morte e ressureição de Cristo, seguem o mesmo calendário dos católicos, mesmo que a manifestação seja menos efervescente e menos alcoolica. Segundo ele, os jejuns espirituais são feitos independemente de qualquer data.

Obgdo pela colaboração! Abços!

Rabelo, C.D. disse...

Sentindo-me contemplado pelas observações feitas por Janice, apenas queria louvar a iniciativa feliz de refletir sobre o assunto. Parabéns!

Neyzinho disse...

Parabéns Janice pelo puxão de orelhas em Claudimar...

Sem querer politizar mas já politizando a questão, acredito q a própria prefeitura tem sua parcela de culpa nessa história. Não existe por parte da administração ações q visem mobilizar os jovens e canalizar toda essa “energia” deles para outras atividades q venham dá sentido a essa tão importante data.

Ações como, por exemplo, a antiga Encenação da Paixão de Cristo, evento lindo que nos levava à reflexão tão citado por Claudimar. Há anos que comenta-se nos bastidores sobre a possível volta desse evento para o calendário da cidade, enquanto isso os jovens na Semana Santa prendem-se ao São Francisco, San Marino, Padre Cícero, Dom Bosco... Santos de litro ou Garafão.