sábado, 22 de maio de 2010

Artigo: A longa "guerra dos redondeiros"

Artigo escrito pelo jornalista e Historiador Tulio Muniz e publicado no Jornal O Povo de hoje:

Artigo

A longa "guerra dos redondeiros"

Túlio Muniz
Jornalista e historiador

22 Mai 2010 - 04h02min

A Somália permanece no noticiário pelos atos de ``pirataria``. O que não se diz é que os ``piratas`` são, em grande maioria, ex-pescadores artesanais que perdem território e estoque de peixe para a poluição, causada pelos navios petroleiros e pelo despejo de lixo tóxico sem tratamento por parte de empresas europeias, agravando a situação de pescadores miseráveis que mantêm-se em atividade. Esses hoje são vitimas dos ``piratas``, que lhes roubam; da Otan, que os alvejam como ``piratas`` e da poluição do tráfego intenso de navios no golfo de Aden.

Nos conflitos recentes em Icapuí, as primeiras opiniões oficiais tendem a criminalizar os pescadores que, revoltados, voltam a queimar barcos que praticam a pesca ilegal e a combater em alto mar, se preciso.

O primeiro conflito da pesca em Icapuí se deu na Redonda, em 1989. Está no poema de cordel ``A Guerra dos Redondeiros contra os compressores``, de Chico de Marina (Prêmio BNB de Cultura, 2001, organizado por Mari Silvestre). Há 20 anos a Redonda é referência de organização comunitária e de enfrentamento às práticas ilegais de pesca, ao passo que se defronta com a poluição dos recifes artificiais e as ``marambaias`` que, sem remoção adequada de produtos químicos, contaminam a fauna marinha.

O exemplo da Somália está geograficamente distante do Ceará, mas socialmente estará cada vez mais próximo dos pescadores locais se as autoridades e os media optarem pela repressão aos pescadores que, longe de serem ``criminosos``, são estigmatizados e incompreendidos no que de fato está se passando junto a eles e as suas famílias. Lembro do rapper somali K- Naan, radicado no Canadá: ``os piratas de uns podem ser a guarda costeira de outros``.

Túlio Muniz é doutorando em Pós-colonialismo e Cidadania Global no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Portugal

Fonte: Jornal O POVO

2 comentários:

Juarez Teixeira disse...

Significado da palavra criminoso segundo o Aurélio: adj. e s.m. Que ou aquele que comete ou cometeu crimes; Fig. Que pode levar a crimes, ou tê-los como conseqüência: gestos, impulsos criminosos.
Quero dizer que, quem sai para o alto mar armados (como diz o povo: até os dentes) e depois dispara com intenção de matar, pais iguais a eles, pra mim são criminosos, nao os culpos por inteiro, culpo os orgãos do governo que estão vendo essa barbarie e nao estão fazendo nada; é bem verdade que se analisar de forma clara não vemos nem mocinhos e nem bandidos, pois teoricamente ambos estão lutando pelo pão de cada dia, claro que uns estão comentendo atos contra a natureza e outros contra seres humanos... pra mim a vida humana é mais importante, mais claro q pra a sobrevivencia dela dependemos da natureza, então é nesse ponto que entra os nossos representantes para dar-lhes uma alternativa, mais só senhor tem muito jogo político nisso, tem muito interesse por trás, e é quem vive aqui que sabe o que está acontecendo... o pior a história mostra que: sempre quem dominou, fez medo foram os pequenos, mais com o tempo os oprimidos (nesse caso, os "piratas") pois saõ eles q estão levando tiros e perdendo seus barcos; irão percerber que são bem maiores e irão se organizar, não quero está por aqui pra ver isso, mais acho q se esse dia chegar, a Redonda ficará bem diferente... obs.: espero q daqui pra esse dia chegar alguém ja tenha tomado alguma providência.

Emilio Konrath - Catamaram Mås disse...

Para mim crime é crime, quem age de forma errada assume os riscos e pode vir a pagar por eles. Se alguém me assalta eu posso, num ato de reação, tirar a vida dele. Estarei cometendo um crime, pois matar é crime. Neste caso quem cometeu um crime primeiro, eu ou o assaltante? Acho que está acontecendo a mesma coisa no mar, pois o pessoal da Praia Redonda não vai ao mar esperar os pescadores ilegais, vai a caça deles.
Na última ocorrência além da pesca ilegal o pessoal tentou afundar o barco da Praia Redonda e tudo isto para preservar o seu butim e para ir para casa e poder usufruir de outros tantos que lá estavam guardado.
Por isto é preciso ter muito cuidado antes de chamar alguém de bandido ou de criminoso, é preciso conhecer a situação toda. Dia destes um conhecido me disse que gente decente não se mascarava para ir ao mar, e eu lhe disse que gente decente não ficava na praia vendo as possibilidades de uma vida decente sendo sugada por pessoas que indecentemente tripudiavam de todas as normas estabelecidas para a exploração dos recursos pesqueiros da localidade.
Pensemos bem antes de chamar alguém de bandido ou criminoso, amanhã poderemo ter de defender nossos direitos e talvez não tenhamos outra possibilidade que não seja o uso da força, o que sempre é ilegal se não for usada na justa medida. Mas a justa medida nem sempre é aquela que gostaríamos que usassem contra nós.