domingo, 20 de junho de 2010

Caderno EVA do Diário do Nordeste traz Dona Vânia Braga e sua arte de labirinto

Na última edição da série de reportagens dentro projeto "Mãos que fazem história"  do Caderno EVA do jornal Diário do Nordeste, traz a história de Dona Vânia Braga, moradora de Mutamba, com o título "Luxo de labirinto", destacada como uma das unicas que sabem fazer redes elaboradas com renda labirinto.

Não deixe de conferir a matéria completa, abaixo.

Luxo de labirinto

20/6/2010
A brisa do mar e a sombra das árvores no quintal da casa de Vânia Braga, 66 anos, na comunidade de Mutamba, em Icapuí, são um convite para deitar e rolar, literalmente, numa rede. Em especial, quando é elaborada com a renda labirinto, branca, confortável e delicada.

Na verdade, o trabalho pode ser comparado à obra de arte, tamanha a beleza. Por ser raridade, tornou-se ainda mais desejado e valorizado, com toda razão. Vânia é a única que persiste nas redes com a tipologia no Litoral Leste do Ceará, reduto das labirinteiras.

Assim como a maioria dessas mulheres, ela aprendeu a técnica aos sete anos, sem ninguém ensiná-la, embora a avó e a mãe produzissem na grade. "Minha primeira renda saiu toda errada, mas não desisti".

Anos mais tarde, no casamento da filha Francisca Maria, 44, decidiu presenteá-la com aquilo que melhor sabe fazer: a rede de labirinto. A peça existe até hoje para confirmar a história. Com a segunda filha, Francisca Lúcia, 39, repetiu o mimo. A técnica é duradoura e, ao mesmo tempo, delicada.

A maior novidade surgiu há 22 anos, quando desenhou o modelo de recém-nascido, especialmente para dar à primeira neta, Francimara. "Essa está passando de mão em mão e, mesmo assim, nunca se acaba. Agora, quem está usando é o filho de um primo meu. Assim, fica tudo em família".

As redes, em linho, são de todos os tamanhos, e o preço médio da grande é R$ 600,00. Sua conclusão precisa de três meses, mas a espera vale a pena. Resta saber se compensa para a artesã. "É como terapia, esqueço de tudo quando estou tecendo", afirma, enfática.

Família

Com vida tranquila, Vânia mora numa boa casa, toda na cerâmica, de varanda e quintal repleto de árvores, galinhas e capotes. Boa parte da construção contou com ajuda do dinheiro do artesanato. Ela já coordenou um grupo de 25 mulheres envolvidas na produção do labirinto, participando inclusive de feiras e eventos.

Há 48 anos casada com o agricultor e funcionário público Francisco Braga Filho, tem duas filhas, uma mora vizinho à sua casa e, a outra, em Fortaleza. Nenhuma delas seguiu o caminho da mãe, embora saibam fazer a renda.

Inspiração

Para quem começou o ofício quando não tinha sequer energia elétrica, usava a lamparina para labutar na grade, pode-se dizer que hoje cria até de olhos fechados. Com sorriso espontâneo e semblante sereno, Vânia demonstra muita disposição: "Sou apaixonada mesmo pelas minhas redes", diz. A riqueza da renda pode ser conferida tanto na varanda como no corpo, composto por desenhos de peixes, flores, corações e estrelas, entre outros.

A inspiração surge da realidade em que vive, cercada de praia, flores, plantas e animais. Aliás, pescar aos domingos, ao lado da família, é um dos programas preferidos da artesã.

No varal de casa, toalhas de banho, guardanapos e panos de prato, tudo branquinho, revelam que ali mora uma labirinteira de capricho. Em cada peça, um detalhe do seu traço. A escola? Frequentou só até a 4ª série, o suficiente para desenvolver as criações e ser feliz.

FRAGMENTOS
Com status de arte
A comissão Científica de Exploração, que estudou o Ceará entre 1859-1861, esteve em Aracati. De lá, o expedicionário Manoel Ferreira Lagos coletou a rede de dormir em renda labirinto, apresentada na exposição dos produtos cearenses que realizou no Museu Nacional, do Rio de Janeiro, em 1863. Segundo a pesquisadora Dodora Guimarães, a peça, com status de arte, continua sendo confeccionada, entretanto, está cada vez mais rara. No Ceará, o Eva encontrou-a somente por meio de Vânia Braga, em Icapuí, antigo distrito de Aracati.

No passado, o labirinto, de origem portuguesa, tornou-se tradicional entre as artesãs, em especial nas regiões litorâneas do Estado. A atividade consiste em criar um desenho quadriculado, desfiar o tecido e, depois, preenchê-lo com linha, criando uma textura vazada e com relevo.
Fonte: Caderno EVA do Diário do Nordeste

2 comentários:

Prof. Mauro disse...

Que legal a matéria que retrata uma técnica artezanal hoje tão esquecida pela sociedade da modernidade. Que essa matéria sirva de exemplo para que mais pessoas possam dar continuidade a esse trabalho tão bonito e interessante.

Parabéns tia Vânia pelo seu talento.

Isaac disse...

Parabéns Vânia pelo seu talento e por esse reconhecimento!