terça-feira, 13 de julho de 2010

Artigo : Nem escuto a zoada da mutuca!

Por: Rabelo C.D.
 
Um outro fenômeno local dos últimos tempos que muito me vem provocando preocupações tem uma referência com algo que prefiro intitular de (des) profissionalismo dos serviços públicos em Icapuí. Sem maiores dificuldades fiz uma associação direta com uma antiga brincadeira de criança, que infelizmente não me lembro o nome. A brincadeira era marcada por um momento em que nós, fazendo mangação dos comandos do coordenador/chefe da brincadeira e desobedecendo suas diretrizes e ordens, insultávamos o chefe com uma cantiga desaforada: “nem escuto a zoada da mutuca! Nem escuto a zoada da mutuca!”. Desse modo, desrespeitávamos o comando e agredíamos o “poder” do coordenador.

Já que “cada ponto de vista é a vista de um ponto”, como bem cita o teólogo da libertação, Frei Leonardo Boff, aqui vai o meu, para que outros possam projetar os seus do ponto de visão onde estão. Por essa razão, ficam avisados os leitores do equívoco que pode ser essa reflexão e de que, a princípio, essa percepção não pode ser generalizada. Do meu ponto de vista, essa cantiga ilustra, em muitos casos, a situação porque passa parte do funcionalismos público local, e, simbolicamente traduz o (des)compromisso e o (des)profissionalismo vigente em uma significativa parcela dos que compõem concreta ou fantasgoricamente (como alguns afirmam) o quadro de profissionais nas diversas áreas da gestão municipal.
A afirmação acima toma por base observações, escutas e vivências, bem como referencia-se em falas e lamentos que um e outro deixa escapar nas ruas, nas praças, nos pontos de encontros, nos ambientes públicos. Em muitas situações de gestão da coisa pública em Icapuí vigora hoje posições que traduzem um “nem escuto a zoada da mutuca” em duas vertentes que ignoram a necessidade da existência de organização e gestão no serviço público, o qual, mesmo sob o signo da democracia, suscita ordenação, “hierarquia” e “autoridade”.
De um lado, os que não se alinham com a perspectiva política do governo municipal atual – a despeito de não ferir suas ideologias – dão-se ao luxo de ignorarem os encaminhamentos, as diretrizes, as orientações proferidas por seus gestores, porque fazê-lo significaria ajustar-se a esse perfil de gestão, e de tabela, contribuir para o governo atual. Um equívoco grande. De outro, de modo mais entristecedor, há uma parcela daqueles que, sedentos de oportunidades de emprego e salário – não de trabalho e compromisso – e sob nítidas manifestações de apadrinhamento político, assumem postos e setores sem qualificação e competência para tal, e se dão ao disparate de fazerem o que bem desejam, ou não fazerem nada o que lhe é dado como responsabilidade, transferindo a outros suas tarefas, ou mesmo deixando-as em “banho-maria”, num “deixa estar pra ver como é que fica”. Estes, quando questionados por terceiros ou por seus chefes, fazem mangofa explícita ou “pelos cantos da boca”, tomando por base algo que não sei o que é, mas que lhe dão o direito de assim se comportar e negligenciar-se de seus deveres. Um equívoco ainda mais sério.
Desse modo, ambos “não escutam a zoada da mutuca”, e pouco se importam com os rumos que o seu trabalho e as políticas públicas dessa cidade toma, e fica por isso mesmo, revelando um alto grau de descompromisso. Os primeiros não escutam os segundos porque não vêem neles credibilidade, competência e compromisso, e os segundos, sem compromisso, desconhecem a regras do serviço público, que mesmo numa perspectiva de gestão democrática ou apadrinhada demanda organização.
O (des) compromisso e a ausência de profissionalismo, nos dois exemplos, dão lugar a uma prática onde as pessoas não se congregam em torno de um projeto coletivo de gestão da coisa pública, porque os primeiros não crêem no novo projeto, e os segundos, que deveriam ter um projeto ou tomá-lo nas mãos, infelizmente não se apaixonam por ele. Movem-se, possivelmente, sob o chiado dos cartões nos caixas eletrônicos, como alguns se arriscam em protestar. Passos precisam ser dados na direção da correção dessa falha, que sendo humana e possível, não precisa ser mantida. 

4 comentários:

Janice disse...

Louvável Mestre! Você soube colocar muito bem esse sentimento de DEScompromisso, o qual já lamentamos tantas vezes.

Adolfo Maia disse...

Clotenir sempre escrevendo bem e no forma muito verdadeira sobre o problema do funcionalismo de Icapuí.

Mas minha humilde opinião para resolver esse problema é ter um projeto claro para cidade, onde todos possam crer que vai dar certo, independente de cor partidária, mas que seja lógico e que possa ser claro a visão de futuro, a missão, as ações e que tenha metas a serem cumpridas para o bem da cidade.

Mas essa personalização da administração pública que deveria ser impessoal, atrapalha também, já que não é uma ação do governo, toda ação da prefeitura se transforma em uma ação pessoal do prefeito.

Mas reitero que é preciso ter projeto para cidade para cidade crescer e desenvolver. Porém eu ainda não consegui ver qual é da atual gestão. Como falei no artigo sobre o desenvolvimento sustentável, é preciso sair do discurso e partir para a ação e essa ação deve ser construida com toda a população da cidade e não somente com uma parcela desta.

Parabens Clotenir, sempre magistral em seus textos, como falo sempre minha escrita tem fica com vergonha frente aa sua e a de Claudimar.

ClaudiMar Silva disse...

Adolfo,

Tbm sou admirador da bela escrita do nosso colega Clotenir, possuidor de um dicernimento incomum no uso das palavras. No entanto, não admito que vc fale assim de vc mesmo. Todos nós somos conscientes de sua genialidade de pensamento, principalmente nos aspectos sociais e históricos de nossa cidade. Creio que sua eterna falta de tempo de um ser assoberbado que é, o impeça de escrever com a frequência que sei que vc desejaria.

Porém, quando decide escrever, não deixa nada a desejar, pelo contrário, é igualmente magistral na transmissão de suas ideias e conceitos. Eu admiro bastante!

Abços! E parabéns para eu, tu e ele, o Clotenir!

Rabelo, C.D. disse...

Ainda que nos acuse de "rasgação de seda", assino embaixo de olho fechado o que Claudimar assevera!!