sábado, 10 de julho de 2010

Crônica: Barcos que navegam na areia.

Por ClaudiMar Silva



Antes os barcos iam da terra para o mar, hoje fazem o caminho inverso. Saem das águas salgadas turvas de tanta guerrilha e sobem os morros de areia da incerteza. Repousam cambados em si mesmos, encalhados talvez para sempre no solo infértil para pesca. Barcos necessitam de mar para serem barcos, para serem meio de locomoção dos bravos homens do mar. Sem mar, apodrecem suas estruturas pesadas, caras e construídas para gerar riquezas, arreiam-se prostrados ali de frente para o mar.

Quando menino, tantas vezes corri descalço na areia quente para ver de perto "botarem os barcos n´água". Tratores arrastavam-os desde o centro até a praia. Era estranho aquele objeto imenso, sem vida, sem função, sem porquê, quando visto em terra firme. Era um monstrengo simétrico, geometricamente perfeito, feito por mãos encantadas de armadores artistas que davam forma as folhas de madeira vindas de tão longe que nem se dizia o nome do lugar. Juntava-se pregos, parafusos, motores, caixa de marchas, tinta, um nome talhado nas bordas e uma infinidade de cacarecos milagrosamente unidos. Nascia um barco.


O espetáculo do primeiro banho, da água salgada penetrando nas microscópicas frestas e sulcos da madeira, do primeiro balanço nas ondas, da incerteza da flutuação (sempre achava que aquilo nunca boiaria), era pra mim, menino filho de pescador, o ápice de uma infância cercada de histórias de pescadores. O mar, além das riquezas que nos dava, exercia um fascínio inexplicável naqueles homens que viviam mais lá do que em terra. A expressão nos rostos queimados pelo sol do mar (sol mais forte que o nosso) era comparável ao nascimento de uma vida, de uma nova vida. O pescador daquele tempo tinha uma ligação parental com o mar, como se corresse sangue salgado em suas veias. Havia um respeito e uma devoção à sua imensidão e à fartura que de lá se tirava. O mar era a sua vida.

Hoje, crescido que estou, não vejo mais alegria no rosto de nenhum pescador. Nem as águas do mar exibem a tranquilidade de outros tempos. Se transformou em território proibido, em campo de batalha. Há tempos que o mar não recebe de braços abertos nenhum barco. Não há mais germinação, não há criação, não há   vida entre o mar e o pescador. Existe sim, disputa pelo o que se esconde inultimente em seu fundo, pois de um jeito ou de outro, irão lá buscar. 



Enquanto a ambição do homem o torna cego e apático, o mar vai secando. As águas continuam verdes, azuis, cinzas, negras, quem sabe até vermelhas, e o pescador se torna órfão de si mesmo. Não tem mais identidade, desaprendeu a pescar, a construir barcos, a ser pescador. Vejo muito deles abdicarem da vida que aprenderam a ter e se arriscam em terra firme, em trabalhos que não se encaixam em sua vida. Vira um trabalho forçado. Em outros tempos, corria para ver os barcos caindo n´água, hoje corro para bem longe, para não ver os barcos que tentam, desconsolados, navegarem na areia.


7 comentários:

Rabelo, C.D. disse...

Tô todo arrepiado! É uma alegria meio que paterna, talvez de um apaixonado perdidamente por esse torrão, ver os filhos dos pescadores, com tanta maestria e beleza, externar sentimentos, leituras, pontos de vistas, munidos de verdade e poesia, mostrando que são competentes e conscientes das coisas que esse chão sofre, e revelando a força e os frutos que o projeto político que os conduziu até aqui prometeu e solidificou nesse lugar.

Parabéns Claudimar! Deu um orgulho tão grande, que acabei me emocionando com seu texto!

Sandra Cristina disse...

Cada vez que leio suas crônicas fico muita emocionada com sua capacidade de criticar refletindo dentro da nossa alma. Parabéns.

ClaudiMar Silva disse...

Agradeço os comentários gentis de Sandra e Rabelo,

Abços!

melquiades02 disse...

Lindo texto! lindo e emocionante. Dá para imaginar o um-dia-menino de pés na areia a pensar. E também foi boa a oportunidade de ver melhor um texto seu, Claudimar, que escreve muito bem.
Forte abraço.

Melquíades Júnior

Jackson disse...

Minha puerilidade exaltada nas suas criativas linhas, Claudimar. Encontrar poesia no 'eco' em que se encontra nosso torrão é, no mínimo, heroísmo artístico. Que belo texto! Como muitos seus que já li!
Parabéns!!!

Emilio Konrath - Catamaram Mås disse...

Belo texto, explana plenamente estado de coisas que foi sendo criando ao longo dos anos.

pensador disse...

valeu claudmar!!!