sexta-feira, 2 de julho de 2010

Diário do Nordeste: Pesca ilegal reduz estoque da lagosta no mar

O jornalista Melquíades Júnior, colaborador do Jornal Diário do Nordeste, tornou-se especialista em pesca da Lagosta e no conflito que envolve o município de Icapuí desde setembro do ano passado. Nessa reportagem, com toque de maestria, relata o verdadeiro problema causador de toda as confusões que aflingem a cidade, que é a pesca ilegal da lagosta.  É um texto bem ilustrativo para compreender  o motivo da fiscalização ilegal feitas pela Redonda e os motivos dos pescadores ilegais para agirem em resposta ao ataques realizados pelos pescadores artesanais.  

A reportagem relata a precária fiscalização do IBAMA. Mostra como funciona a pesca de compressor e o risco à saúde que essa forma de pesca gera, onde muitos pescadores utilizam de drogas para aguentar a atividade. Aborda a insustentabilidade da pesca predatória e faz um resumo da guerra da lagosta: "os pescadores ilegais protestam que os legais (artesanais) não têm poder de fiscalização (dever do Ibama), mas os ilegais predadores não dão sinais de que querem fazer a pesca dentro da lei, e a queda de braço persiste no mar."

Um erro foi encontrado no texto, mas pequeno diante do texto, que as comunidades que estão se tornando arquirrivais não é Mutamba e Redonda, como diz na matéria e sim a comunidade de Barrinha e da Redonda.

O blog A Cidade Icapuí parabeniza o repórter Melquíades Júnior  por essa matéria.

Leia a reportagem completa clicando no LEIA MAIS.


Pesca ilegal reduz estoque da lagosta no mar

2/7/2010
Enquanto um pescador artesanal captura 12 quilos de lagosta no dia, o ilegal pesca 250kg/dia

Icapuí. O mar é azul no fundo, verde no raso, e se pinta de vermelho quando dois diferentes grupos de homens entram no embate de fogo para decidir quem está mais correto, quando ao final o que mais querem é levar lagosta para comprar o feijão do almoço. "Entre morrer de fome e morrer porque tô trabalhando, prefiro sair pro mar e trazer o sustento", é no que resume um pescador enraivecido por ser chamado de ilegal, pirata, predador. Utilizando equipamentos proibidos como compressores de ar e marambaia, esses pescadores travam uma guerra com os pescadores artesanais. Balas, mortes, incêndios, protestos, e os órgãos estatais do poder pouco intervêm no conflito social, econômico e até de saúde pública, em que a ilegalidade na pesca só tem beneficiado os atravessadores comerciais da lagosta.

À primeira vista (e só até aí) não há nada mais eficiente e lucrativo economicamente do que pescar mergulhando no mar com auxílio de compressores de ar. É o que faz o pescador ilegal, que num só dia pode pescar até 250kg de lagosta. E nada menos alentador do que quem só tem um barco a vela com gaiolas de madeira e náilon para capturar o crustáceo. É o que faz o pescador artesanal, legal, que em um dia inteiro consegue pescar em média 12 quilos de lagosta. É essa diferença (o pescador ilegal conseguir em um dia de pesca o que o artesanal conquista em um mês) o principal atrativo para a pesca predatória, que responde por grande parte da produção e venda da lagosta no Ceará, bem como a redução desse produto no mar.

Mesmo com profissionais o dia inteiro no mar, com equipes que incluem fiscais do Ibama, policiais militares e mergulhadores do Corpo de Bombeiros, a fiscalização da pesca ilegal no mar do Ceará é paliativa e precária. Quem confirma são os próprios agentes que participam da operação (orientados a não dar entrevistas), muitas vezes frustrados com as ocorrências que não puderam combater.

Bastou que o bote inflável motorizado da Operação Impacto Profundo, do Ibama, se afastasse da área marítima entre as cidades de Aracati e Icapuí, divisa em que se concentra a reprodução e desova da lagosta, para o reinício dos conflitos. Os pescadores artesanais da Praia de Redonda deslizam entre heróis e vilões nos capítulos da história da "Guerra da lagosta" - que o Caderno Regional vem cobrindo em reportagem. Eles utilizam o manzuá -, instrumento permitido por Lei, não agridem o meio ambiente, garantem sustentabilidade e a preservação do animal, fonte de renda de milhares de famílias, inclusive dos ilegais. Mas são também os "redondeiros" que fazem da camisa capuz, revólver no cunho e seguem no embate contra os pescadores ilegais, que capturam mais lagosta em detrimento da degradação ao meio ambiente e com o risco da própria extinção da fonte de renda.

"É uma contradição, eles agindo assim estão acabando com a lagosta não só para nós como para eles mesmos. A gente tem que pensar no amanhã, é isso que eles não tão fazendo", pontua Maurício Valente, pescador da comunidade de Redonda, onde se defende a pesca artesanal. Um resumo da guerra: os pescadores ilegais protestam que os legais (artesanais) não têm poder de fiscalização (dever do Ibama), mas os ilegais predadores não dão sinais de que querem fazer a pesca dentro da lei, e a queda de braço persiste no mar.

Mas o mal da pesca ilegal ultrapassa as fronteiras marítimas, atinge a saúde pública. De acordo com o próprio pescador ´ilegal´, que prefere preservar a identidade, a pesca com compressor é complicada e nem um pouco saudável. Para aguentar a atividade, altamente de risco, muitos pescadores fumam maconha ou mesmo pedras de crack. Em Icapuí, há jovens pescadores viciados em crack, conhecido no mar.

Quem não fuma, ou não admite, não deixa de reconhecer que o ar que recebem do compressor "faz mal". Não só o ar poluído que levam aos pulmões, como também o procedimento errado de mergulho e saída do mar (fora do ritmo de pressão do corpo) tem causado sequelas em pescadores ilegais, os "alternativos". A principal delas é a embolia pulmonar. Os mais afoitos passam do limite de profundidade em que se pode respirar com o compressor e "prendem o ar" no pulmão para garantir a captura do maior número de lagostas. A pesca com compressor já causou deficiência física em alguns pescadores.

A guerra do mar desembarca em terra por meio de protestos dos dois lados, ameaças, e comunidades como Mutamba e Redonda tornando-se arquirrivais. Dos dois lados, pais de família fazendo juras de morte, querendo justificar atitudes violentas e de vandalismo em nome da sobrevivência.

Predatório
"Os pescadores ilegais estão acabando com a lagosta não só para nós como para eles mesmos"
Maurício Valente
Pescador da comunidade da Praia de Redonda

MAIS INFORMAÇÕES
Instituto Brasileiro de Recursos Naturais Renováveis (Ibama)
Escritório em Fortaleza (CE)
(85) 3272.7370


Melquíades JúniorColaborador

Fonte: Jornal Diário do Nordeste

Um comentário:

Emilio Konrath - Catamaram Mås disse...

A clareza deste artigo é irrefutável. No início eles desconheciam a realidade da pesca da lagosta, mas agora estão se inteirando da situação.
Espero que estas matérias cheguem as autoridades e que as providências sejam tomadas.