sábado, 20 de novembro de 2010

Artigo: Os ecochatos tinham razão

José de Arimatea da Silva
Geógrafo

As questões referentes ao meio ambiente deixaram de ser uma discussão de ambientalistas e se tornaram um fator de preocupação da sociedade mundial. Só após o despertar da herança maldita que recebemos como premio da incessante degradação do planeta é que nos damos conta de que ou mudaremos nossa forma como nos relacionamos com o meio, ou o planeta entrará num colapso que comprometerá a existência da vida. Começamos a perceber que os "ecochatos" tinham razão quando viviam nos enchendo o saco com ideais preservacionistas.

As previsões mais recentes, que não são apenas previsões são fatos, estão se confirmando como forma de “acordar” ou “acordar” para a realidade. A intensificação das catástrofes naturais, a volta das epidemias, o aumento de 4ºC na temperatura do planeta, a extinção das espécies, o avanço do mar, o aumento das áreas áridas e semiáridas, entre outras, são provas cabais do processo de exaustão do planeta que tem se acelerado intensamente nos últimos anos pela ação antrópica.

Mas partindo de uma visão global pra a local, não podemos nos isentar desta problemática, pois estamos inseridos e interligados neste espaço de conexões. A seleção natural nunca esteve tão fundamentada como neste momento, porque a hora é de nos adaptarmos ao ambiente e não o ambiente a nós, precisamos já estar preparados ou pelo menos nos preparando para um futuro com menos água, menos alimentos, temperaturas mais elevadas, e tantas outras mudanças que vamos sofrer nos próximos 20, 30 e 50 anos, quem se adaptar
melhor fica.

Mas quero levar a discussão para um assunto que tenho maior familiaridade que é a Barra Grande. Este local compreende o mais fantástico e dinâmico ecossistema da zona costeira, área de alta taxa de reprodutividade e produção de nutrientes que é o ecossistema manguezal. São nesses ambientes que as acontecem as interconexões da terra com o mar, que há uma troca fantástica de matéria e energia através dos fluxos de sedimentos, hidrológicos, biológicos, físicos, químicos, entre outros. Além de ser a base da cadeia ecossistêmica da zona costeira o manguezal tem um papal fundamental na produção de alimentos, no equilíbrio da produtividade pesqueira, na redução da ação das marés, na captação de co² da atmosfera entre milhares de outros serviços ambientais.



Mesmo compreendendo toda essa importância, o ecossistema manguezal tem sido alvo de degradação que o fragmentou e o fragilizou. Para compreender o processo da degradação do manguezal da Barra Grande vamos fazer uma análise espaço temporal daquele ambiente. No inicio do século XX deu-se o inicio a instalação das salinas na visão de uma atividade geradora de emprego e renda. As salinas devastaram de forma indiscriminada o ecossistema, desviaram os canais de maré, jogaram águas hipersalinas no manguezal, desconsideraram suas funções ambientais, sem nenhum planejamento, visão de sustentabilidade nem percepção futura. 

Além da degradação do ecossistema manguezal as salinas degradaram os seres humanos que trabalhavam feito escravos até a exaustão, muitos trabalhadores ficaram cegos, morreram de câncer de pele ou ficaram aleijados, os lucros foram minimizados e concentrados entre os donos, a atividade entrou em decadência e o ônus ficou para todos nós. Já na década de 50 do século passado surgi outra alternativa de em prego e renda que tem sua ascensão na década de 70, a pesca da lagosta, novamente a Barra Grande entra no ciclo da atividade econômica,  desta vez cedendo seus canais de maré para área portuária. Com isso, o óleo dos motores dos barcos, lixo, palhas e tintas se misturaram a água do canal trazendo danos irreparáveis à fauna local, diminuindo aceleradamente os itens alimentares produzidos naturalmente ali. A vegetação ciliar das bordas do canal principal também foi removida para facilitar o abastecimento dos barcos. A atividade está em decadência, e nós ficamos novamente com o prejuízo.

Já exaurida pela degradação, no inicio do século XXI a Barra Grande é local de implantação de outra atividade geradora de emprego e renda, símbolo de “desenvolvimento” para o município: a carcinicultura. Esta ocupou antigos baldes de sal, impediu a regeneração do manguezal, privatizou áreas de domínio público roubando o direito adquirido das populações tradicionais que utilizavam o manguezal e lançou altas taxas de metabissulfito e matéria orgânica no canal, o que gerou a morte das poucas espécies de peixes que ainda existiam.

Mais recentemente, lá vem outra atividade para ser implantada na Barra Grande, um parque eólico, no mesmo e velho discurso desenvolvimentista de geração de emprego e renda. O projeto iria repetir todos os processos anteriores e pela primeira vez houve intervenção da Justiça.

E agora a discussão do porto da Barra Grande. Não quero aqui tomar partido contra ou a favor do projeto, mas quero levantar a discussão da importância da preservação manguezal considerando-o como base da cadeia produtiva da zona costeira, dos serviços ambientais gerados, da importância na captação de CO² da atmosfera (lembrando que Icapuí foi o terceiro município do estado do Ceará que mais realizou queimadas contribuindo para o aumento de CO² na atmosfera), de exigir que se considerem os estudos e trabalhos realizados na área, de que se leve a discussão para a população grupos que lutam pela preservação do manguezal, que haja uma compreensão da fragilidade do ambiente e principalmente que se tenha uma visão a médio e longo prazo. Esse desenvolvimentismo selvagem por incrível que pareça se repete em tempos de mudança climática sem nenhuma noção de planejamento e sem avaliar as consequências para as populações, considerando não só os seres humanos mais todos os seres do planeta.

Na análise espaço temporal da degradação da Barra Grande, só espero que esta última não entre na minha lista daqui a alguns anos.

Você deve está pensando nesse momento: que besteira que esse cara escreveu. A mesma coisa que um senhor de Mossoró que ia construir uma casa na saída do corredor de Peixe Gordo (próximo a praia) pensou ao ler um parecer que escrevi em 2003 sobre o local da construção, alguns anos depois quando ele teve parte da casa soterrada por uma duna e outra parte derrubada por escoamento de agua da chuva, tenho certeza que ele pensou: “pois não é que ele tinha razão”.

5 comentários:

Eduardo disse...

Há muito não lia um texto tão bom.

Concordo em número, genero e grau.

Construimos, mudamos, alteramos sempre pensando no "desenvolvimento".

Nunca podemos esquecer os impactos de uma tomada de decisão em relação ao meio.

Professor Wellington Pinto disse...

A matéria é um alerta, um grito dos mangues nas palavras de Arimatea, essa discussão deveria ir para as salas de aulas, ruas... É uma pena que as coisas de Icapuí acontece e as pessoas não percebem, quando o mal "tá" feito é tarde, e vem a desculpa, eu não sabia...
Gostaria que na próxima matéria o companheiro abordasse a questão dos currais de peixes, uma tradição milenar que aos poucos desaparece de cena...

Tiago disse...

Como é bom ver que temos discussões de alto nível sobre os ecossistemas municipais. É de grande satisfação que apoio, como já fora dito, em gênero, número e grau o artigo postado pelo Arimatéia.
Vamos tentar fazer essa discissão tomar as ruas e, principalmente, a consciência dos jovens do nosso município.

Rabelo, C.D. disse...

Sem palavras para mensurar a beleza humana e a competência técnica com "matéia" escreveu esse texto/alerta, resta-me agradecer a Deus e ficar aqui muito feliz, por demais, pela qualidade de pessoa e de profissional deste amado Icapuí que ele se tornou! parabéns menino! Mesmo!!!

Prof. Mauro disse...

Muito importante a reflexão que Ari faz em seu texto. Essa é uma das muitas alertas que o mesmo faz desde muito anos em nossa cidade. Espero que o poder público e as pessoas que acreditam num ambiente equilibrado possam de fato serem parceiros nessa empreitada. Parabéns pela matéria.