sábado, 26 de março de 2011

Artigo: Ideologia X pragmatismo

Escrito por Wellington Pinto
Professor

Antes de abrirmos essa discussão política se faz necessário conceituar essas duas palavras para a compreensão do leitor:
 
Ideologia é um conjunto de idéias ou pensamentos de uma pessoa ou de um grupo de indivíduos. A ideologia pode estar ligada a ações políticas, econômicas e sociais.
Pragmatismo, nas palavras de William James e Francis Schaeffer – “aborda o conceito de que o sentido de tudo está na utilidade - ou efeito prático - que qualquer ato, objeto ou proposição possa ser capaz de gerar”. Uma pessoa pragmática vive pela lógica de que as idéias e atos de qualquer pessoa somente são verdadeiros se servem à solução imediata de seus problemas. Nesse caso, toma-se a Verdade pelo o que é útil naquele momento exato, sem conseqüências.
 
Com o fim do comunismo real, simbolicamente representado pela queda do muro de Berlim, a esquerda ficou perdida em termos de ideologia. O mundo vivia uma bipolaridade, capitalismo representado pelos Estados Unidos da América e do outro lado o comunismo, representada e idolatrada pela URSS. Na implosão desse sistema os intelectuais e ativistas marxistas ficaram sem um rumo a seguir, o caminho mais curto foi seguir o pragmatismo, o útil no exato momento. Essa crise de identidade da esquerda desfacelou muitos partidos que tinham como bandeira de referencia a antiga URSS, Albânia, Cuba e Nicarágua através do movimento sandinista. Vieram à tona as atrocidades da URSS na era do stalismo, onde milhares de opositores foram fuzilados ou foram à prisão na Sibéria. Até o marxista intelectual Trotski foi vítima das perseguições de Stálin.
 
O PC do B durante muito tempo tinha como referencial político ideológico a Albânia, era o paraíso do PC do B, lembro dos meus embates com Tinoco Luna (petroleiro) no Aracati, defendendo a Albânia com unhas, dentes e língua afiada. Hoje o PC do B tem como linha política a era Lula, suposição pessoal.
 
O PT chegou ao Aracati através do Pe. Lopes, atual pároco de Icapuí, tinham uma vivência política, através de reuniões, inserção nos sindicatos, escolas e nos pleitos eleitorais. Aos poucos a direção do partido saiu das mãos da igreja na pessoa do Lopes e caíram nas mãos das tendências partidárias de Fortaleza, no caso Guimarães (atual deputado federal) e Kennedy. Os dois se aproximaram do PT do Aracati através dos cursos de formação política; nos finais de semana Guimarães comparecia ao Aracati para falar de marxismo-leninismo. Nessa época o PT era pobre, financeiramente, pra Guimarães vir ao Aracati fazia uma “vaquinha” para arrecadar fundos para bancar as passagens de ida e volta de Guimarães ou Kennedy, sempre ficavam hospedados na casa de Marcos “picorrel”. Depois Luís Carlos (bancário do BB) se encarregou de passar pra gente essa literatura marxista. Fazíamos política com ética, muita garra e sofrimento. Muitas vezes o “carro” ia pra o interior divulgar os comícios da nossa prefeita Daluz e ficava no prego por falta de gasolina e não tinha dinheiro pra comer, se viravam os militantes nas casas de outros companheiros do interior. Hoje vejo tantos que renunciaram sua ideologia pelo poder, outros humilham os que construíram o PT desde a base e até hoje se mantém coerente com suas posições políticas, esquecidos por defenderem bandeiras antigas que deram credibilidade as esquerdas. O PT de Icapuí passou por um processo político a partir do Aracati, Inocêncio Uchoa aderiu ao PT e com ele veio José Airton Cirilo e todo grupo de Icapuí, participei dessa conversa de adesão de Inocêncio Uchoa na casa dos pais do Pe. Lopes na Rua Grande, a partir daquele momento Icapuí passou a ser administração pelo PT para surpresa de muitos que não esperavam essa grinada de José Airton Cirilo.
 
Frisei dois partidos porque atualmente são os dois que estão em mais evidência no cenário político do Brasil. Vale ressaltar que atualmente esses partidos fazem política pragmática porque acreditam que é uma maneira mais fácil de chegar ao poder. O PT chegou ao trono depois de muitos anos, perceberam que chegar ao poder com muita radicalidade era impossível em um Estado burguês, compactuaram com antigos cacifes da política nacional, por conta disso o PT se prostituiu politicamente. Foram pra lama muitos fundadores PT nacional, porque não tiveram a coragem de dizer não, preferiram o caminho mais fácil, o pragmatismo. Pagaram um preço alto; hoje em termos de partido o PT é igual a tantos outros, não se desfacelou em brigas internas por conta do ex-presidente Lula, que ainda é um referencial político do partido e mantém essa unidade partidária.
 
Enfim não temos uma tradição Republicana como nos Estados Unidos da América, lá se é democrata é democrata, se republicano é republicano e ponto final. Atualmente o prefeito Gilberto Kassab insatisfeito com o DEM, fundou um novo partido (PSD) para driblar a justiça eleitoral, já que o mesmo corria o risco de ser punido por infidelidade partidária. É tão fácil se criar um partido político no Brasil como se troca de camisa, é Brazil.
 

Um comentário:

procad disse...

[José Marcelo]
Muito boa esta avaliação professor Wellington, digna de quem conhece profundamente os aparatos que formaram e ainda formam a história e os politicos brasileiros. Aqueles que se recusaram seguir naqueles caminhos que descaracterizavam a essencia do PT ficaram de fora como hoje ainda ocorre. Conheço relatos de políticos que romperam com o partido que ele mesmo ajudou a criar, justamente por este (o partido) ceder as pressões da burguêsia e, contudo, fugir do idealismo que originou, que fundamentou o partido.