quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Mar do Ceará: Desenterrando o Naufrágio das Espoletas em Ponta Grossa - Icapuí, CE

Texto: Marcus Davis

Fotos: Thiago Magalhães e Marcus Davis
 
Ponta Grossa, Icapuí, CE

Na costa leste do Estado do Ceará próximo a fronteira com o Rio Grande do Norte existe uma pequena vila de pescadores chamada Ponta Grossa. Esta localidade possui cerca de 400 habitantes mas esta cheia de mistérios e curiosidades.
Ponta Grossa é um pequeno paraíso cercado pelo mar e por falésias. Fontes de água mineral brotam na beira da praia, algumas são cobertas pela maré cheia e procuradas por peixes-boi, para beber a água doce. Pequenos lagos servem como berçário para algumas espécies de peixes. As falésias compõem a paisagem predominante assim como as dunas de areia branca. Uma dessas dunas pode ser avistada a mais de 40 quilometros mar adentro.
Ponta Grossa, Icapuí, CE

Sustentados pela pesca da lagosta e, mais recentemente, pelo turismo, os moradores são cordiais e zelam pelo lugar. São todos descendentes de uma mesma família, os “Crispim”, o que torna todos parentes em algum grau. Logo que se chega ao lugar observamos os cabelos loiros e olhos claros em alguns moradores, influencia da colonização estrangeira que, segundo eles, seria holandesa. Além dessas particularidades Ponta Grossa se tornou conhecida por estudos recentes que a apontam como o local onde o espanhol Vicente Pinzón aportou dois meses antes de Cabral chegar ao Novo Mundo contradizendo a história oficial.

Foi nesse paraíso que Seu Jonas, um simpático senhor de olhos verdes e cabeça branca me contou sobre um naufrágio que teria ocorrido antes do seu nascimento, mas que ouvira a historia de seu pai diversas vezes. Seu Jonas me contou o seguinte:

“Na época do meu pai, encalhou aqui um navio que trazia munição para armas antigas. Mais precisamente espoletas para mostequetes. Esse navio vinha ‘fazendo água’ e encalhou próximo aos ‘Pilãos’. Os tripulantes que falavam uma língua estrangeira, retiraram a carga do navio – as espoletas – e a colocaram nas dunas em frente ao local do encalhe. Meu pai foi ao encontro desses náufragos que o presentearam com uma capa de chuva – ou um casaco [pode ter trocado por pescado com os náufragos]. Quando papai voltou pra casa com o presente, a polícia vinha chegando e o levou preso, acusando-o de ter roubado a capa! Resolvido o mal entendido, soltaram meu pai. Quando eu era criança eu ainda avistava os restos do navio, até que um dia o mar desmanchou tudo.”

No início a história de Seu Jonas me pareceu apenas uma história. Mas meses depois conheci Josué, um arqueólogo amador nativo de Ponta Grossa que desenvolve um trabalho independente e possui um verdadeiro museu em sua casa. No acervo estão moedas, inclusive uma de ouro, garrafas, um relógio russo comemorativo da segunda guerra mundial, artefatos indígenas e muito mais.
Sítio das Espoletas
Josué confirmou o relato de Seu Jonas e me mostrou diversos artefatos provenientes do sítio das espoletas, entre os artefatos estavam cacos de porcelana de diferentes épocas e origens, talheres, moedas, dobradiças, pregos, botões de roupa, pedaços de garrafas e as espoletas. Quando me levou ao local quase não acreditei. A medida que caminhávamos sobre a duna, pequenas peçinhas de metal esverdeado – espoletas – surgiam no chão assim como cacos de porcelana e farelos de ferrugem.

Josué me contou também que próximo ao local onde foi armazenada a carga do navio houveram habitações posteriores ao encalhe durante um breve período, o que provavelmente contaminou o local com objetos de diferentes épocas e dificultaria qualquer tentativa de identificação deste naufrágio.
Espoletas, munições antigas

Mesmo com essas dificuldades decidi estudar alguns dos objetos encontrados por Josué. Possivelmente muitas dessas peças não pertencem ao naufrágio mas indicam algumas peculiaridades. Um exemplo é que encontrei cacos de porcelana inglesa, holandesa, francesa, e potuguesa, países muito distantes de uma duna perdida em uma praia deserta no nordeste do Brasil.

De acordo com o relato de Seu Jonas seu pai era jovem quando aconteceu o episódio e ele mesmo nem era nascido, ele afirma que quando era criança restavam apenas algumas poucas partes do navio. Podemos sugerir então que o naufrágio pode ter ocorrido entre 1860 e 1910. Os artefatos encontrados por Josué situam o naufrágio entre 1830 e 1961. Fazendo uma interseção obtemos 1860 a 1910.

As espoletas são de origem inglesa assim como diversos objetos encontrados no sítio. Outros, como o botão e a colher, aparentemente são originários de uma colônia inglesa, a Austrália.
Objetos encontrados no sítio
por Josué

As partes de uma porta, como as dobradiças de aço e as peças da maçaneta e fechadura não se adequam ao estilo de moradia da região – principalmente da época em que a região foi habitada – casa simples, de taipa e pau a pique. Como foram encontrados somente as partes de metal, sem resquícios da madeira podemos sugerir que esta porta foi queimada. Queimada pelos náufragos? Eles necessitam de fogo.
Pesquisando os naufrágios ocorridos no período registrados pela Marinha Brasileira encontrei as seguintes possibilidades:

·         Express – Brigue – Suécia – Saindo de Aracatí e sendo rebocado, bateu em um banco – 1873
·         Hadlys – S/I – S/I – 1873 – Aracatí
·         Maria Luiza – Brigue – Itália – 1873 – Aracatí
·         Paraense – vapor – Brasil – Encalhe – 1867 – Recifes conhecidos como Banco do Meio.

Expedição "Maio"
Desses, podemos eliminar o Paraense, visto que procuramos uma embarcação estrangeira. Visto que não foi observado nenhum objeto de origem sueca entre os artefatos encontrados, também podemos eliminar o Express. O Hadlys foi abaldroado por um brigue italiano, provavelmente o brigue Maria Luiza.
Após intensa pesquisa histórica era necessário localizarmos e identificarmos a presença de destroços, caso contrário não teríamos um naufrágio. Colhemos informações com os pescadores e delimitamos uma área de busca próxima a linha da praia. A profundidade máxima esperada eram 5 metros e a visibilidade 0m devido a proximidade com a praia, não mais que 30 metros da linha de arrebentação das ondas.
Marcação de um dos pontos

Organizamos uma pequena expedição que batizamos de "Maio" e partimos no início de junho de 2009 para o local. Embarcamos o material logo cedo e navegamos para o local. Marcamos 4 pontos no GPS formando um quadrado e distantes 100m ou do outro. Planejávamos fazer quatro mergulhos e aplicar o método de busca circular com raio de 50m utilizando como centro os pontos marcados no GPS, assim cobriríamos uma área de 100m x 100m.
Uma das concreções
localizadas.
          Partimos as 6:30 da manhã em uma jangada a motor e logo chegamos ao primeiro ponto marcado. Após um rápido mergulho de reconhecimento constatei uma profundidade de 3m e visibilidade 0m. Equipamos-nos e iniciamos a busca utilizando o padrão circular com o auxilio de uma carretilha. Próximo ao fim do primeiro mergulho a carretilha laçou algo! Logo no primeiro mergulho! Uma ponta de ferro completamente coberta por concreções emergia do fundo arenoso. E logo encontramos outra, e outra e outra. Várias pontas de ferro emergiam da areia evidênciando que algo se escondia ali. Pelas várias camadas de concreção que recobriam as “pontas” metálicas podemos sugerir que tinhamos um naufrágio a muito tempo enterrado ali. Fizemos algumas medições e marcamos os pontos exatos. Alguns pontos identificados ficava a mais de 15m dos outros seguindo um padrão linear, sendo a distancia máxima de 17m. Agora tinhamos a certeza de estar estudando um naufrágio.

Josué Crispim e Marcus Davis.

RELAÇÃO DE ARTEFATOS ENCONTRADOS POR JOSUÉ

·         As Espoletas. As 4 pás indicam que são de fabricação inglesa destinadas para uso militar mas também utilizadas por civis. Seu uso se deu entre 1830 e 1870 e por diversos exércitos de vários países.
           
·         Pedaço de Metal com as seguintes letras legíveis: “...WILL...” “PATENT 22...” “...L...”. Pesquisando registros de patente norte-americanos relacionados a armas de fogo encontrei dois interessantes. O primeiro, 1855 – N° 2229. – HOWELL, JOSEPH BENNETT. — " Improvements in the manufacture of steel castings for ordnance, and other purposes." E o segundo, 1855 – N° 2239. – ROGERS, WILLIAM. — " Improvements in fire-arms." Several charges may be fired from the same barrel by employing as many locks and nipples as there are charges.

·         Porcelana Choisyle-Roi. Fina porcelana francesa fabricada entre 1860 e 1910.

·         Pedaço de porcelana com a inscriação “Ironstone China”. Originária da fábrica J&K Meakin, lacalizada em Hanley, Inglaterra. Este emblema foi utilizado durante a década de 1890, nesta época sua produção foi largamente exportada para a América do Norte e Sul.

·         Fundo de uma garrafa de porcelana escrito: “Price, Bristol”. Da marca Powell and Price's Stoneware, fábrica originária de Bristol, Inglaterra e funcionou de 1796 a 1961.

·         Fundo de garrafa com a inscrição: “Imperial Quart”. Trata-se de uma garrafa de cerveja da marca Powell and Rickets, fabricada entre 1800 e 1900 e originária de Bristol, Inglaterra.

·         Colher de metal com a inscrição “Jonn Moreton”. Pesquisando na web, encontrei informações sobre John Moreton (com H no lugar do N), que produziu peças e porcelana entre 1832 e 1847 em Sydnei, Australia.

·         Botão de roupa com as seguintes inscrições: “Light Foot”, “Melbourne”.
·         Colheres de metal diversas.
·         Pesadas dobradiças de ferro, peças de uma maçaneta e fechadura, estrutura do ferrolho. Provenientes de uma porta.
·         Cravos de ferro e pregos quadrados.
·         Selos de chumbo Portugueses.
·         Moedas falsificadas do Império Português.

Fonte: Blog Mar do Ceará


Nenhum comentário: