quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Artigo: O cultivo de algas no município de Icapuí (CE): mulheres que cultivam e que constroem valores


Escrito por Rosinere Ferreira da Costa
 Mestranda em Ciências Naturais

05-09-2011

Rosinere Ferreira da Costa - Mestranda em Ciências Naturais - UERN - Bióloga - Reg. Nº.: 59.181/05-D
Resumo: A praia da Barrinha localizada no município no Ceará é caracterizada pela existência de um anco natural de algas e fanerógamas popularmente conhecido como “banco natural”, de onde várias famílias algicultoras sobrevivem da renda proveniente dessa prática com a espécie denominada (Gracilaria caudata) através do seu cultivo, coleta e da venda tanto da alga bruta, como na fabricação de seus derivados como geléias, xampus, sabonetes, etc. Esse trabalho objetivou-se apresentar e descrever como se dá a prática do cultivo de algas na praia da Barrinha pelas famílias algicultoras e de que forma essa atividade propicia a sustentabilidade à região e a manutenção do ecossistema marinho existente, através de práticas de cultivo sustentável. Com isso foram aplicados questionários com os moradores locais que participam do processo de exploração e conservação do banco de algas. Onde pode-se constatar que o cultivo de algas em pequena escala contribui para agregar renda, além de promover o desenvolvimento sustentável da comunidade, o que contribui para o fortalecimento das formas de organização e associativas da comunidade e para o melhor manejo dos recursos naturais. Palavras Chave: Algas. Mulheres. Cultivo. Sustentabilidade. * Este artigo foi enviado para o VII Congresso Nacional de Agroecologia.


Introdução

No município de Icapuí no estado do Ceará, pode-se considerar que a biodiversidade está refletida no mar, com a presença de um grande banco de algas e de várias espécies da fauna marinha. Especificamente na área oceânica, o município conta com a riqueza dos corais e da vida marinha, especificamente na região da praia e linha de costa apresenta dunas e falésias que abrigam vegetação halófita, que se misturam às plantas da caatinga; e na área de transição entre o mar e terra, com a faixa denominada de manguezal, apresenta grande diversidade de moluscos, crustáceos, peixes, aves e mamíferos.

A praia da Barrinha está localizada a aproximadamente 6 km da sede do município, essa área apresenta grandes valores naturais e paisagísticos. A região é caracterizada por um banco natural de algas e fanerógamas popularmente conhecido como “banco natural”. Este atua no ecossistema como uma cobertura natural contra a erosão costeira. Constituindo-se de diversas espécies de crustáceos, moluscos, aves, peixes e mamíferos, atuando como habitação e fonte de alimento para a fauna local e migratória. O processo de ocupação nessa praia é recente e irregular, caracterizado por residências de pescadores, marisqueiras e algicultores, além de segundas residências, como as de veraneio. Nessa praia se concentram as principais atividades econômicas do município como a da pesca e a extração de algas marinhas, como uma das principais fontes de renda para os moradores da comunidade local.

Na praia as mulheres trabalham lado a lado com seus companheiros e ainda tem as responsabilidades domésticas e os cuidados com os filhos. Recebem a profissão de “marisqueiras” (quando coletam mariscos) ou “algueiras” (quando coletam algas), sendo que a maioria delas recebem as duas denominações, por coletarem tudo que o mar oferece. As algueiras coletam algas de “arriba da” (aquelas que se desprendem do banco e são encontradas na praia) ou diretamente no banco natural, aonde conduzem sozinhas uma jangada e carregam seus apetrechos para a coleta (sacos de ráfia, facas, cordas e fitilhos). Assim estas mulheres contribuem com o complemento da renda familiar e, muitas vezes, chegam a conquistar sua independência financeira.

É importante ressaltar que o banco de algas e fanerógamas da praia da Barrinha encontra-se bastante ameaçado devido à extração indiscriminada e insustentável. Esta ação predatória, além de ameaçar o ecossistema, intimida todas as relações de subsistência que as populações costeiras possuem com este ambiente. Esse trabalho objetivou-se apresentar e descrever como se dá a prática do cultivo de algas marinhas na praia da Barrinha por mulheres, como forma de dar sustentabilidade à região e manutenção deste ecossistema marinho, através do cultivo sustentável.

Metodologia

Foram aplicados questionários na Praia da Barrinha, com os moradores locais que participam do processo de exploração e conservação do banco de algas. Os questionários foram aplicados durante um mês com trinta pessoas residentes na localidade, onde nesse questionário foram avaliados: O Histórico da extração de algas do gênero (Gracilaria.), onde foi realizada uma análise quanto ao perfil socioeconômico dos entrevistados; Dados referentes aos períodos e técnicas da coleta, renda gerada e as formas de comercialização; Avaliar a percepção para com os possíveis impactos ambientais ocasionados pela atividade.

Resultados e Discussão

Como citado anteriormente o cultivo de algas surgiu como uma forma de preservar o banco natural, este que vinha enfrentando grandes impactos com a extração indiscriminada de suas mudas. Segundo os moradores da comunidade, entre as décadas de 80 e 90 eram extraídos do banco natural cerca de dezenas de toneladas para serem exportadas. Atualmente a espécie cultivada pelas algueiras e algueiros é a Gracilaria caudata, também conhecida por “capim fino”, espécie bentônica epílitica (fixadora de substratos), que é encontrada nos bancos naturais ou nas zonas infralitoral ou sublitoral que é conhecida como a faixa localizada abaixo do nível das marés mais altas, ficando totalmente submersas.

Na praia constatou-se que há a existência de um projeto que tem como base desenvolver a atividade de cultivo de algas na comunidade, como uma alternativa tecnológica diferenciada de aquicultura sustentável, fortalecendo o desenvolvimento socioambiental, visando melhorar a qualidade de vida das populações locais. Esse projeto é desenvolvido com participação efetiva da Associação de moradores da Barrinha (AMBA), que formaram o grupo de “algicultores” representado por oito mulheres e quatro homens. É atuante em parceria com o Projeto “Esse Mar é Meu” da Fundação Brasil Cidadão, que possui em uma de suas linhas de ação e metas o desenvolvimento socioeconômico sustentável, através do cultivo e exploração sustentável de algas marinhas.

Foi relatado que a metodologia usada pela (AMBA) na construção de suas estruturas e módulos de produção de algas, basicamente utiliza-se estruturas flutuantes do tipo “long-lines”, onde o material consiste de cordas de polietileno e bóias flutuantes, sendo estas colocadas em mar aberto em áreas previamente delimitadas e estudadas (há aproximadamente 2 km da praia). O cultivo das algas marinhas com objetivos econômicos tem sido realizado com sucesso para várias espécies, seguindo metodologias com o tipo básico de cordas instaladas diretamente sobre o mar. Para este método de cultivo são utilizadas mudas (propagação vegetativa) que são inseridas em cordas e colocadas no mar para crescer.

As mudas mais volumosas e naturalmente limpas são coletadas do banco natural (de forma sustentável, ou seja, sempre deixando parte da alga em seu substrato para que a mesma possa crescer continuadamente) no mesmo dia em que serão plantadas. Sendo levadas até o cultivo onde são amarradas de forma segura, ou então as mudas podem ser amarradas nas cordas antes de serem levadas até o cultivo (devendo ser hidratada sempre com água salina e mantida na sombra até que seja plantada). Elas podem ser colocadas nas cordas de duas maneiras: uma, é usando o fitilho (espécie de cordão resistente); e a outra é entre as extremidades da corda.

O manejo do cultivo acontece quinzenalmente em épocas de marés altas, estas marés são mais viáveis para realizar os trabalhos do cultivo, tornando mais fácil o acesso ao plantio. A manutenção se dá com a reposição de mudas que forem perdidas devido à ação das correntes marítimas ou de embarcações que trafegam descuidadamente; verificação do estado das bóias e cordas, para evitar a poluição do mar; limpeza manual de mudas, cordas, estacas e bóias para retirada de plantas e animais incrustados, além de sedimentos que se depositam no talo das algas; correção do posicionamento das estruturas que se deslocam com a ação da dinâmica da maré.

As mudas são plantadas com um peso aproximado de 50g (a padronização o peso é importante para se obter uma produção mais rápida e homogenia), sendo colhidas entre 60 a 90 dias. Depois de colhidas, as algas são lavadas postas para serem secadas, em um tipo de secador solar artesanal (giral, feito a partir de estacas, ripas e cobertos por telas). Quando já estão secas, elas devem ser “batidas” para a retirada de outras algas ou lama que geralmente enrolam-se entre elas. Seguindo esse processo, as algas são ensacadas e armazenadas em lugar seco, até o momento da comercialização ou de seu aproveitamento para fabricação de seus derivados(cosméticos e alimentos).

Foi observado que o cultivo de algas marinhas demonstrou ser uma atividade de baixo impacto ambiental que possui a capacidade de se desenvolver continuadamente sem provocar nenhum declínio dos recursos naturais ou alterações negativas nos ambientes em que se desenvolve, além disso, o cultivo traz retorno financeiro tanto na venda da alga bruta, como na fabricação de seus derivados (geléias, xampus, sabonetes etc). Outro efeito positivo constatado neste cultivo foi o desenvolvimento de uma comunidade de organismos associados às algas cultivadas. Foi observado o aumento no número de peixes, microcrustáceos, alem de moluscos em estágio juvenil (estes organismos apresentavam-se em pequenas quantidades antes da construção do cultivo). Esses animais são bastante explorados pela economia da comunidade, ou servem de alimento para peixes maiores. Desta forma o cultivo contribuiu com a sustentabilidade dos recursos costeiros, aumentando a produtividade da região.

Constatou-se que o projeto de cultivo de algas em pequena escala contribui para agregar renda, além de promover o desenvolvimento sustentável das comunidades litorâneas. Na comunidade da Barrinha, os participantes do grupo de doze famílias de algicultores , que introduziram a atividade de cultivo como um complemento de renda, alternativa as atividades tradicionais, como: pesca predatória da lagosta, extração de marisco, pesca artesanal etc., sendo capaz de melhorar significativamente as condições econômicas dos núcleos familiares que fazem parte do grupo, através da venda in natura e do beneficiamento da alga na produção de seus derivados. A organização dos produtores promoveu a capacitação em técnicas simples de cultivo, o que contribui para o fortalecimento das formas associativas da comunidade, além da organização dos grupos de famílias para trabalharem juntas na comunidade.

O surgimento da coleta e do cultivo de algas na comunidade permitiu uma independência de variações naturais da produção pesqueira. Além disso, houve um aumento considerável quanto ao conhecimento a respeito dos organismos existentes no ecossistema, envolvendo a comunidade em um melhor manejo dos recursos naturais, ajudando a sua conservação.

Agradecimentos 

Agradecemos a todos os moradores da comunidade da praia de Barrinha, a Associação de moradores da Barrinha (AMBA) especialmente as algueiras e ao Projeto “Mulheres de Corpo e Alga” da Fundação Brasil Cidadão.

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Fonte: Fundação Brasil Cidadão

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