quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Artigo: Como reféns do povo

Tenho a estranha mania de escrever por motes reais, em especial a partir de conversas cotidianas, de expressões minhas ou de outros acerca do que nos circunda. Em geral, são motes bem vivos, latentes na falação diária de recantos locais que se desenham na geografia da sede municipal como verdadeiras centrais de distribuição dos “recados” e dos “informes” acerca da vida da cidade e que centram sempre no assunto da hora.
Entre tantos fatos e boatos, mais rápidos que os mais eficientes blogueiros do cyberespaço (rimou...), os movimentos mais sorrateiros de Icapuí explodem nas calçadas e aglomerados revelando algozes, juízes e repórteres invejáveis que traçam copiosas análises de diferentes perspectivas. Neste conjunto, um fenômeno se mantêm: as decisões e procedimentos do governo municipal, discutidos e decididos a sete chaves em suas reuniões “secretas”, antes mesmo que se “bata o martelo” final, correm velozes de boca em boca inspirando novas análises e alimentando o disse-me-disse. Impressionante como isso acontece, já que, nascido em tempos de outrora, antes mesmo do celular se universalizar, tais comentários são igualmente rápidos na divulgação.
Do montante de temáticas, dignas de um grande congresso, o tenso rumor acerca da pressão de parcela da população por ocupar postos de trabalho e de benefícios estranhos no atual governo como pagamento pela adesão à aliança entre o Partido dos Trabalhadores e seus aliados no processo de eleição complementar me traz à tona uma reflexão que não posso deixar de comentar, por pura responsabilidade humana e política com este município que prezo como terra natal. Falo da posição de refém que o atual governo incorpora no momento frente às investidas do povo para angariar lucros pessoais, financeiros e políticos junto aos gestores locais por essa e por aquela atitude de adesãono período eleitoral.
Penso que tal situação é por demais complexa por duas razões específicas: a primeira refere-se à difícil mudança de postura e de entendimento do povo do que seja  a gestão das políticas públicas, dado o forte período de formação de uma cultura paternalista e individualista praticada a esmo pelos gestores anteriores, ensejando uma prática doentia de querer para si e os demais que fiquem a ver navios. Junto a isso, os procedimentos hediondos de ganhar sem trabalhar, receber salários superiores ao que de fato percebe oficialmente, contrair benefícios que não lhe são de direito, empregar pessoas sem a mínima qualificação para os postos de trabalhos e outras aberrações, alardeadas pelas ruas icapuienses como vergonhosas, tais posturas ganharam o infeliz status de “prática comum e aceita”. Com essa compreensão, boa parte da população acredita que o atual governo deva seguir o mesmo caminho, repetindo as práticas, e mesmo as pessoas que aderiram ao movimento cobram dos gestores atuais que executem estes feitos, sob pena de ser considerados traidores.
A segunda razão da complexidade desse assunto é oriunda da primeira, e refere-se ao entendimento que, dado essa cobrança, fica explicita a percepção de que, o fato de que o povo tenha se posicionado a favor da mudança de governo aderindo massivamente à proposta dos partidos aliados deva estar mais ligado a querer fazer parte dessa mania local junto a um novo governo e tirar daí seus proveitos a exemplo do mau sucedido processo anterior do que ser participante da restauração da dignidade do município, das suas políticas públicas e da qualidade social da vida de todos. E isso assusta, e muito. Ambas as razões explicitadas acima comprometem a qualidade da ação da gestão municipal pelo risco de traçar práticas semelhantes, repetindo os erros criticados e minando as diferenças ideológicas e políticas de modos de governar distintos. 
Definitivamente, o acerto está na distinção no modo de governar, pois se isso não se evidenciar, em pouco tempo quaisquer projetos visualizados no alvorecer desse novo momento de Icapuí irá se esvair rapidamente. O desafio então está em reverter com inteligência esse perfil paternalista/individualista instaurado, revelando para o povo que o caminho para a qualidade de vida é a coletividade, a solidariedade e a justiça. Desse modo não tenho resposta, tenho inquietações. Que elas sirvam para inspirar caminhos

6 comentários:

ClaudiMar Silva disse...

Amigo Clotenir, parabéns pela percepção...

Essa "peculiaridade" política de Icapuí contribui e muito para o emperramento do crescimento da cidade. Tais "benefícios" são provenientes de uma política do agraciamento construída ao longo da nossa história, e parece está impregnada no consciente popular: o coletivo fica em segundo plano! Infelizmente...

Precisamos mudar esse pensamento, o eleitor e os eleitos!

Parabéns mais uma vez.

Jakcier disse...

Muito interessante suas observações, Clotenir. De fato, suas colocações refletem uma prática lastimável de parte da população, nas ruas e calçadas de nossa cidade. Parabéns pelo texto, muito bem construído, tando do ponto de vista ideológico quanto estrutural.

Jakcier disse...

Muito interessante suas observações, Clotenir. De fato, suas colocações refletem uma prática deplorável de parte da população, nas ruas e calçadas de nossa cidade. Parabéns pelo texto, muito bem construído, tando do ponto de vista ideológico quanto estrutural.

joao disse...

Parabéns pela capacidade de perceber e expressar sua opinião, seu texto resume de maneira simples e clara a situação politica que se encontra o nosso municipio, porém é necessário salientar que a maioria dos nossos representantes politícos alimentam essa situação, levando uma parcela da população de Icapuí a acharem que o seu voto é mais valioso do que do outro, e assim se achar no direito de exigir o retorno em forma de benécias individuais e não coletivas. Mais uma vez parabéns pelo texto.

Dr Edilson Ferreira disse...

Concordo plenamente, excelente e oportuna reflexão. Parabéns.

Marcus Rebouças disse...

PARABENS CLOTENIR, POR SUA INCIATIVA, PORÉM PESSOAS TÉCNICAS E COM SENSIBILIDADE A POPULAÇÃO, INFELIZ MENTE NÃO SÃO APROVEITADAS NAS GESTÕES. OS ADMINISTRADORES TÊM QUE PARAR DE FAZER POLITICAGEM, E SIM TRABALAHR EM PROL DE NOSSA CIDADE, GERANDO EMPREGO E RENDA PARA TODOS, INDEPENDENTEMENTE DE QUAISQUER PARTIDOS POLITICOS. ABRAÇOS